segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Mate-me Por Favor e meu flerte artístico com a Anita Rocha da Silveira

Mate-Me Por Favor - Imagem Divulgação.
Esse é um texto atípico de qualquer postagem sobre filmes na internet. Entenda isso como um papo de um artista para outro, mas essas duas pessoas não se conhecem e só uma consumiu ao menos partes do trabalho da outra.

Aviso legal: estar nesse blog consiste na grande probabilidade de você saber quem eu sou. No entanto, há a possibilidade de você ter dado um clique acidental que o trouxe até minha humilde residência na internet. Desse modo, se me conceder a oportunidade, vou me apresentar de maneira adequada:

O meu nome é Dulcelino Neto, trabalho como redator freelancer e conto histórias de ficção. Para mais detalhes sobre minha personalidade, posso dizer que no momento tenho a Bianca Comparato e o Michael Fassbender ou o Jake Gyllenhaal como meus atores favoritos. Aprecio cultura pop como um todo e tenho um carinho especial pelos produtos asiáticos; acredito que o plano de fundo do blog responda os demais questionamentos.

Esse sou eu, apenas mais um carinha qualquer; comum e talvez translucido o suficiente para passar despercebido na sua roda de amigos.

Todavia, esse não é um artigo sobre mim, mas sobre a minha não tão recente admiração pelo trabalho da Anita Rocha da Silveira, diretora e roteirista de cinema que atualmente está cartaz com o seu primeiro longa-metragem, Mate-me Por Favor.



Sinopse: Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma onda de assassinatos invade o bairro. O que começa como uma curiosidade mórbida se apodera cada vez mais da vida dos jovens habitantes. Entre eles, Bia, uma garota de 15 anos. Após um encontro com a morte, ela fará de tudo para ter a certeza de que está viva. (via Imovision).

Essa breve explicação é apenas uma maneira de elucidar novamente que isso é um papo de um artista para outro. Agora você sabe ao menos um pouquinho sobre as duas pessoas envolvidas na história dessa postagem.

A matéria é basicamente dividida em duas partes, a primeira fala sobre o estilo da diretora e a segunda é uma série de especulações e indicações que acredito combinar com a proposta de trabalho dela. O artigo é esquizofrênico nesse nível, mas juro que sou razoavelmente saudável!

Sem mais delongas, vamos ao que importa: Anita Rocha da Silveira.

Anita Rocha da Silveira por Ian Gavan.
Conheci o trabalho da diretora através de uma lista de nomes de novos talentos da indústria cinematográfica brasileira. Na lista, ao qual não tenho o link e não recordo do site, havia alguns nomes que eu já conhecia e outros desconhecidos. Resolvi pesquisar cada um individualmente e o profissional que prendeu mais a minha atenção foi a Anita.

Na época a diretora, que também é roteirista, editora e produtora, estava debutando com o seu primeiro longa-metragem em festivais de cinema. Manja aquele papo furado de adolescente: “fale bem ou fale mal, mas falem de mim”? Então, fiquei muito mais interessado no trabalho dela através de uma crítica negativa ao seu filme. Por algum motivo aquilo que o crítico menos gostava era justamente o que mais chamava a minha atenção.

Fui pesquisar mais sobre a Anita para poder conhecer melhor sobre o seu trabalho. Descobri com poucos cliques que ela fez alguns curtas-metragens antes do primeiro filme e que a Lorena Comparato, que segue o DNA de talento artístico da gangue dos “Comparatos”, tinha participado de um desses curtas. Foi com Handball, seu segundo curta, que consumi pela primeira vez o trabalho da diretora.

Adorei aquela porra e revi ontem antes de escrever esse artigo. Não gostei de todos os detalhes mostrados no vídeo de dezenove minutos, mas em um todo eu apreciei bastante daquilo que me foi apresentado mediante suas limitações financeiras. Depois disso assisti O Vampiro do Meio-Dia e Os Mortos Vivos. Não sei se Falos & Badalos também conta como curta-metragem, mas o vi apenas recentemente e não tecerei maiores comentários sobre.

Fiquei querendo consumir mais do trabalho dela, porém o trailer de Mate-Me Por Favor tardou a sair. E além disso, para piorar minha situação, quando o filme finalmente estreia no cinema eu não tenho um único centavo na carteira. O freela não caiu na minha conta e os bancários estão em greve nesse exato momento... não verei meu suado dinheirinho antes desses putos voltarem a trabalhar de a greve acabar.

Dulcelino, seu retardado, você está falando de um filme que você não viu?

Quase isso, mas não serei louco em dizer se a obra é boa ou ruim pelo simples fato de não ter a assistido. Entretanto, é válido ressaltar que estou falando mais do meu flerte artístico com a diretora do que sobre o seu filme de estreia.

Todos os curtas-metragens estão disponíveis no fim dessa postagem!

Muitos pontos no trabalho dela chamaram a minha atenção. Algumas coisas são temáticas recorrentes e outras estão relacionadas ao estilo narrativo das suas histórias. O primeiro destaque é justamente a temática. Em entrevista ao Arte1, ela disse que Mate-Me Por Favor “conclui o que eu já vinha trabalhando nos últimos anos. Tratar os adolescentes de uma forma que não banalize eles, não subestime o adolescente e que possa mostrar personagens complexos com uma gama de sonhos e desejos”. (O vídeo só aparece se o AdBlock estiver desativado).



É algo que faz todo sentido se você comparar as cenas e as temáticas dos curtas e até mesmo o trailer do longa-metragem.
Cena de Os Mortos Vivos.
Poster de Mate-Me Por Favor.
A Anita fala muito sobre o comportamento dos jovens em seus respectivos grupos. O seu texto mistura melancolia e as alegrias da juventude em um pacote só. Posso arriscar em dizer que algumas de suas histórias, em especial as três últimas (Handball, Os Mortos Vivos e Mate-Me Por Favor), falam também sobre solidão e depressão.

Em Os Mortos Vivos a trama não se resume apenas a melancolia dentro de um ambiente social, mas também aborda o conceito de estar morto para essas relações. A história poderia simplesmente falar sobre o distanciamento das pessoas. Nós costumamos ser próximos de nossos amigos, mas em momentos distintos nós nos separamos e cada um segue para um lado. Uma pessoa que não responde suas mensagens ou que não entra mais em contato está morta para você, mas ambos estão vivos.

Mate-Me Por Favor, como o próprio nome indica, é outro de seus trabalhos que flertam com a morte, mas de maneira mais direta. “A morte, ali, não é oposição à vida, mas uma pulsão no meio do vazio que pode ser a existência”, disse em entrevista à Revista TPM.



E nada representa melhor o vazio existencial do que a solidão em meio à multidão... ficar bebendo sozinho dentro de uma festa é um ótimo exemplo disso:
Cena de Handball.
Cena de Os Mortos Vivos.
Cena de Mate-Me Por Favor.
A terra está girando, os outros estão felizes, porém, por algum motivo, você ainda vive estagnado dentro daquela sociedade. Isso eu entendo na prática, porque eu sou o cara que está sozinho na festa bebendo sozinho. Uma vez uma adorável aniversariante me ameaçou com uma faca de plástico, daquelas com dentes, para que eu me levantasse e socializasse com o mundo externo além da minha confortável cadeira que também era de plástico.

As descobertas da vida nunca são realizadas sozinhas. Não vou entrar em detalhes mais particulares, mas a Anita já falou também que ela tinha seu grupinho de amigas como uma boa adolescente. E como em um bom grupinho de amigas ou amigos, as pessoas vão aprendendo e se fudendo juntas. Essa parceria, momentânea ou para a vida inteira, é sempre uma louca mistura de tristezas e alegrias.

Isso é muito bem representado em qualquer grupo de jovens que ficam jogados no chão conversando com seus amigos ou pares românticos:
Créditos de O Vampiro do Meio-Dia.
Cena de Handball.
Cena de Os Mortos Vivos.
Cena de Mate-Me Por Favor.
Você está estagnado em uma rotina necessitando sentir algo extremo para poder viver. Sem esse gatilho é muito difícil sair do lugar.

Outro ponto que chama muita a minha atenção para o trabalho da Anita é o seu senso estético. A diretora gosta de ter o controle sobre o seu projeto, chegar no set já sabendo o que precisa ser feito. Essa característica pode ser considera perfeccionismo, mas eu prefiro chamar de bom senso, porque tempo é dinheiro e ela não pode se dar ao lucho de perder uma hora ou um dia de filmagem devido a algo que não foi seguramente elaborado anteriormente.

Essa característica da personalidade artística dela também se reflete no produto final, pois pensar com antecedência permite que ela organize melhor a estética do enquadramento, fotografia e afins.
Cena de Handball Lorena está desmaiada!
Cena de Os Mortos Vivos.
A imagem de Handball é praticamente uma pintura renascentista e a do Os Mortos Vivos faz uma belíssima alusão aos filmes de zumbis ao combinar maquiagem e fotografia no rosto de uma garota que só quer que a fila do banheiro feminino seja mais rápida.

São esses pequenos e gloriosos detalhes que me faz dizer que sou fã da Anita Rocha da Silveira, mesmo não assistindo o seu filme. A diretora é nerd, e simpatizo muito com isso. Não sei se posso afirmar se ela é muito ou pouco nerd, também não sei se é saudável rotular uma pessoa dessa forma, porém é difícil não considerar isso quando algumas das referências dela é David Lynch, Wes Craven, Bryan De Palma e George Romero; também arrisco colocar o Paul Verhoeven nessa lista.

Desconstrução lúdica de temáticas como zumbis e vampiros também corroboram com minha teoria. O fato dela dizer que a fantasia é o gênero que melhor combina com Mate-Me Por Favor também é um aspecto valoroso. Todavia, se isso não for o suficiente para o convencimento geral da nação, observe essa sequência de imagens de O Vampiro do Meio-Dia:
O Vampiro do Meio-Dia - O homem vitruviano.
O Vampiro do Meio-Dia - Galileo Galilei.
O Vampiro do Meio-Dia - Star Wars.
O Vampiro do Meio-Dia - Superman.
O Vampiro do Meio-Dia - Vampira (X-Men).
O Vampiro do Meio-Dia - Milo Manara.
O Vampiro do Meio-Dia - Sandman.
I rest my case!

Prosseguindo com o meu flerte artístico com a diretora: confesso que gosto muito de enquadramentos bem feitos, não que eu seja um especialista no assunto, mas aprecio bastante quando o diretor(a) combina seu trabalho com o do diretor de fotografia para conseguir enquadramentos que passem uma estética que contribua com a narrativa da sua trama. Nesse assunto o Wes Anderson, aquele lindo, é um especialista. A Anita também brinca bastante com esse recurso:
Cena de Mate-Me Por Favor
Cena de Os Mortos Vivos
Como é perceptível pelos pontos de ouro, a composição das paisagens em cena é bem harmônica e equilibrada. Na imagem de Os Mortos Vivos, se você traçar uma linha das pontas inferiores até o centro, que é justamente o encontro da cabeça da menina com o pescoço do ator, você verá que a guia da calçada à esquerda segue paralela à base de proteção da árvore onde o casal está sentado:
Cena de Os Mortos Vivos
Em Mate-Me Por Favor ela falou que se inspirou muito no trabalho do David Lynch em Twin Peaks. Na série, ao qual eu não assisti, ela disse que o diretor usa bastante da cidade como um cenário a ser explorado pelos personagens e telespectadores. O ambiente é um personagem, por assim dizer. Isso se reflete muito bem na imagem que abre o trailer do filme da Anita, que tem como fundo uma belíssima imagem do Rio de Janeiro (Barra da Tijuca?) em seu esplendor compondo o ambiente da cena.

O valor estético do seu trabalho não se resume ao enquadramento. A Anita gosta também de retratar cores nas suas histórias.

Ué, mas as cores não são comuns em qualquer filme que não seja monocromático?

Sim e não. São poucos os diretores que realmente deixam as cores em destaque em seus filmes. É mais confortável desfrutar de uma estética simples do que arriscar e comprometer sua fotografia, cenário, figurino e maquiagem.

Anita gosta de cores e ela não se acovarda ao usar:
Cenas de O Vampiro do Meio-Dia.
Cena de Os Mortos Vivos.
Cena de Mate-Me Por Favor.
E por que eu estou escrevendo sobre tudo isso? Obviamente não é só por simpatizar com a maneira que a diretora conduz suas histórias. O meu flerte é outro. Sabe quando você descobre algo novo e fica maluco por não ter com quem conversar? Então, essa é minha situação nesse exato momento!

Nos últimos dias têm saído uma série de matérias sobre Mate-Me Por Favor e muitas pessoas, em especial a própria diretora, comentaram sobre um ponto específico da narrativa do longa-metragem: a mistura de gêneros.

Sempre quando falam que o filme utiliza de drama, comédia, thriller e até mesmo terror na sua narrativa eu fico querendo encontrar a Anita para perguntar: Mulher, você gosta do cinema coreano?

Puta que me pariu, Dulcelino! Você está enrolando em um texto gigante só para falar de filminho da Coreia do Sul?

Calma gente, eu juro que faz todo o sentido para proposta dessa matéria! Se você já viu algum filme marcante da coreia, com certeza você já tem ideia do que estou querendo dizer com isso.

O cinema coreano contemporâneo, como mencionei em outra postagem, bebe muito de fontes estrangeiras, especialmente do cinema norte-americano. Unindo isso as demais características já comuns da cultura local, o cinema coreano, daqueles mais vistosos e simbólicos, costumam oscilar em gêneros diferentes. E isso não se resume ao cinema, as séries televisivas e até mesmo a música desfruta dessa influência e mistura.

É por causa disso que eu adoraria trocar breves palavras com a diretora sobre a arte do oriente. A coisa mais legal de trabalhar com arte é essa troca de informações. Eu, enquanto telespectador e produtor de conteúdo artístico, gosto de saber quais são as fontes de influência das artes que consumo para poder conhecer mais da pessoa e de sua obra.

O melhor da arte é consumir mais arte.

Nessas novas críticas que saíram do filme também vieram acometidas uma série de comentários sobre a influência do David Lynch no trabalho da diretora. Toda essa conversa fiada sobre o Sr. Lynch me fez ligar o videogame em uma sexta-feira à noite para assistir o único filme disponível do diretor na Netflix: Veludo Azul.

Por acaso do destino, a trama de Veludo Azul me lembrou a sinopse de Mate-Me Por Favor e o estilo de narrativa, estética e temática, me acometeu ao que a Anita havia realizado em seus curtas-metragens.

No filme de Lynch o protagonista, Jeffrey (Kyle MacLachlan), encontra uma orelha e se vê fascinado por toda a história de criminalidade que pode estar por trás desse membro desgarrado do corpo de algum ser humano. A orelha é a essência do extremismo sentido pelo personagem, sendo justamente aquilo que o força a sair da estagnação mundana. No filme é mencionado muitas vezes como as pessoas ficam deslumbradas com as estranhezas da vida.

Em Mate-Me Por Favor a protagonista, a Bia (Valentina Herszage), no lugar de encontrar uma orelha, ela se depara com um corpo inteiro. Essa trama também poderia ser confundia com Conta Comigo, mas acredito que os conceitos e a aplicação do conteúdo sejam bem diferentes.

No fim, o que importa é que a Anita, o David Lynch e eu apreciamos as coisas estranhas em meio ao cotidiano comum. Procurar pelo bizarro no mundano ou sentir a esquisitice, seja uma sensação positiva ou negativa, é algo realmente fascinante.

Por isso que insisto em recomendar o cinema coreano contemporâneo para uma pessoa que não o conheça. E, é claro, também recomendo absurdamente uma série de animações japoneses pelos mesmos princípios.

É entretenimento; é divertido; e tenho certeza absoluta que o conhecimento maior sobre produções asiáticas é o que a diretora precisa para afiar ainda mais sua narrativa cinematográfica – lembrando que quem está falando é uma pessoa que não viu ao seu filme e que não tem um terço das suas capacitações profissionais. Eu sou um merdinha, não se esqueçam!

No fim, acho que eu só queria conversar de cinema com ela porque sou fascinado por seu estilo. Quero aprender mais sobre o trabalho dela, acredito que seja exatamente esse o meu sentimento.

Como a ideia dessa postagem é um bate papo na forma de um monólogo, vou dedicar o fim da matéria para fazer indicações de filmes diversos. Em tese a indicação deveria ser para a Anita, mas como, também em tese, a probabilidade dela ter conhecimento desse texto é mínima, vou dedicar todas as minhas dicas e recomendações para você, leitor corajoso que perigou por tantas palavras para chegar até aqui.

Observação 1: Por que cinema asiático? A resposta não é muito complicada. Normalmente nós, artistas e consumidores, ficamos presos a nossa própria cultura e costumes, o que acarreta na estagnação de nossas opiniões e visões de mundo. Consumir a cultura asiática, entenda como Japão, Corei do Sul e China, faz com que eu aumente meu espectro de visão sobre as coisas, me possibilitando ter ideias diferenciadas dentro de um mesmo contexto.

Consumir culturas ou histórias em mídias fora do seu senso comum proporciona soluções diferentes, o que amplia o ramo de abordagem de qualquer ideia.

Isso também pode ser aplicado para o cinema argentino, francês e alemão. Todo esse consumo acaba sendo um divertido processo de aprendizado. Nas animações e quadrinhos japoneses, por exemplo, os artistas enxergam esses formatos como uma mídia onde é possível contar diversos tipos de histórias. Isso permite que eles criem para todas as idades nos mais variados gêneros possíveis.

Ter essa perspectiva de possibilidades é muito importante para qualquer tipo de artística, principalmente para um cineasta brasileiro.

No Japão, para cortar os custos da animação, por muitas vezes as séries possuem imagens quase estáticas onde apenas alguns pontos se movimentam. Isso poupa tempo e dinheiro dos estúdios que conseguem transmitir as histórias sem muito esforço.

Todavia, isso tende a deixar as animações “desanimadas” se o estúdio não souber fazer adequadamente. No entanto, isso não significa que os artistas responsáveis pela animação vão fazer algo de qualquer jeito. Na série Monogatari as animações são realizadas com um custo de produção padrão, porém, elas são belíssimas! Por que isso acontece? Isso acontece porque é feito todo um trabalho de estudo de cor, estética e planejamento prévio que deixa a animação linda:
Cena de Bakemonogatari
Observe os elementos da cena de combate de Bakemonogatari. Os animadores utilizaram uma paleta de cores vivas que deixa os desenhos com uma estética única e vibrante. Combinar isso com a suavidade e velocidade dos movimentos dos personagens deixa tudo muito mais impactante e bonito. Entretanto, isso só é possível por causa da criatividade dos responsáveis pelo projeto.

Você está falando da criatividade das cores?

Não, estou falando da criatividade do fundo de cena.

Mas não tem fundo!

Exato! Por não ter fundo, se limitando a um breve cenário em CGI, que barateia a animação, todo o custo de produção (pagamento dos animadores e coloristas responsáveis por todos os frames da cena) fica focado na luta, permitindo que a cena seja realizada com a riqueza de detalhes e beleza apresentadas nesse GIF animado.
Cena de Kizumonogatari
Cena de Kizumonogatari
Nessa outra sequência de imagens é possível perceber que a qualidade de animação de Kizumonogatari é muito melhor do que em Bakemonogatari. Todavia, isso é apenas uma meia verdade. O conceito é o mesmo explicado anteriormente. Ao longo do episódio é seguido o procedimento padrão de corte de custo: desenhos longos, animações apenas em um ou outro ponto do frame, dentre outros aspectos comuns da indústria. Ao fazer isso eles têm a liberdade de gastar o dinheiro economizado em uma sequência impactante como essa.

Aqui o que novamente provocada o maior impacto são as cores. O fundo é em CGI, o que permite “girar” a cena em torno do personagem. Os gastos maiores ficam no sofrimento dele ao ser queimado vivo. Simples, belo e extremamente eficaz.

Em outras palavras: o dinheiro é escasso, mas sua criatividade não! É disso que qualquer cineasta brasileiro necessita, ter consciência que sua criatividade é capaz de fazer qualquer coisa independente dessas adversidades. Obviamente há um fator “motivacional lúdico” nessa frase, mas o importante é entender o sentimento, não necessariamente assumir isso com uma verdade absoluta.

Acredito que a Anita disponha de todos esses valores, especialmente dos mencionados no decorrer desse artigo; esse é meu flerte artístico com ela. Você consome histórias diferentes, aprende coisas novas e propõe soluções únicas para os seus próprios projetos.

Observação 2: Como disse anteriormente, existe a possibilidade da Anita ser nerd; e por ser nerd, existe outra possibilidade de ela conhecer todas as indicações que vou fazer a seguir. Com o perigo de ser enfadonho, essas são as minhas dicas:
Cena de Oldboy.
Park Chan-wook (Chan-wook Park): Mr. Vingança; Oldboy; Lady Vingança; Sede de Sangue; Segredos de Sangue (Filme americano).

Começando pelo óbvio. Se alguém sabe brincar com mistura de gêneros na coreia é o Park Chan-wook. O diretor tem um estilo único, visceral e impactante que consegue provocar os mais diversos sentimentos em seu telespectador. Oldboy é seu filme mais conhecido, mas Sede de Sangue e Mr. Vingança são aqueles que melhor combinam humor, drama, surrealismo e bizarrices. A versão digital dos filmes está disponível na Amazon americana para compra ou locação (links nos nomes de cada filme).

Cena de Eu Vi o Diabo.
Eu Vi o Diabo (I Saw The Devil): Filme espetacular. Um thriller que também combina gêneros, mas muito mais moderado do que o trabalho do Park Chan-wook. Esse é um tipo de história suja que faz você se sentir um pouco mal ao mesmo tempo em que te deixa empolgado com tudo o que está acontecendo na trama. A versão digital do longa-metragem está disponível para compra ou locação na Amazon americana.

Cena de Memórias de um Assassino.
Memórias de um Assassino: O filme é uma investigação longeva de um assassinato. A trama não é de mistura de gêneros porque o seu foco principal é na tensão entre dois detetives protagonistas e o assassino misterioso que assombra todo o enredo. Nada é mais estranho do que perguntas sem respostas. DVD usados disponíveis no Mercado Livre.

City Hunter - Imagem Divulgação.
City Hunter: City Hunter é uma série de TV/Novela coreana que exala com perfeição a já famigerada mistura de gêneros. O primeiro episódio tem intriga política, porrada, tiroteio, desmembramento e até mesmo um submarino! Porém, no segundo episódio a história começa com uma comédia romântica de desencontros que vai evoluindo para um thriller relacionado aos acontecimentos do primeiro episódio. Cada episódio tem uma média de uma hora de duração e a série está disponível gratuitamente (com propagandas) no DramaFever.

Perfect Blue - Imagem Divulgação.
Satoshi Kon: Perfect Blue; Millennium Actress; Tokyo Godfathers; Paprika.

Satoshi Kon é de longe um dos melhores diretores dos últimos vinte anos. Já falecido, o diretor foi responsável por algumas das melhores e mais relevantes animações da história contemporânea do Japão. Os seus trabalhos são a prova cabal de que a animação é uma mídia onde se pode contar histórias adultas em um nível sublime.

Você pode não ter assistido um dos seus filmes, mas com certeza já deve ter visto Réquiem Para Um Sonho e Cisne Negro do Darren Aronofsky ou A Origem de Christopher Nolan. Os três filmes, especialmente Cisne Negro e A Origem, são abertamente influenciados pelo trabalho do Satoshi Kon em suas animações. Gosta de Cisne Negro e A Origem? Então assista Perfect Blue e Paprika, que são justamente as versões espetaculares dessas duas obras.

É difícil encontrar o trabalho do Satoshi fora da Locadora do Paulo Coelho, mas é possível locar ou comprar a versão digital de Paprika na Amazon americana.

5 Centímetros por Segundo - Imagem Divulgação.
5 Centímetros por Segundo: Falei bastante sobre 5 Centímetros por Segundo em outra postagem, portanto, não vou me estender aqui. Como mencionei o distanciamento das pessoas ao falar de Os Mortos Vivos, acho válido indicar esse filme aqui. O longa-metragem animado tem um pouco mais do que uma hora de duração e está disponível na Netflix.

Suicide Club - Imagem Divulgação.
Suicide Club: Diferentemente do que as pessoas pensam, o Japão não é o país com o maior índice de suicídios, mas isso não quer dizer que os números não sejam alarmantes. Suicide Club reflete sobre isso em uma estética de terror e surrealismo. A versão digital do longa-metragem está disponível para compra ou locação na Amazon americana.

Cena de Confissões.
Confissões: A filha de uma professora morre e os responsáveis por isso são dois alunos da sua própria sala da aula. Em frente da turma a professora acusa os dois suspeitos e faz uma ameaça que vai destruir o psicológico de ambos. O filme é muito intenso e tem um estilo simples e inteligente de narrativa. Vários formatos de DVD e Blu-ray (Caros!) disponíveis na Amazon americana.

Cena de Helter Skelter
Helter Skelter (Herutâ sukerutâ): Helter Skelter é a adaptação de um mangá homônimo que aborda o culto doentio da beleza. O longa-metragem foca no quão nocivo é a vida de uma pessoa problemática que necessita ser um símbolo idolatrado em todos os sentidos possíveis. Não sei onde encontrar o filme por vias legais, mas o mangá pode ser adquirido no site da editora New Pop. Não li o quadrinho, então recomendo mais o filme por sua estética única, bela e violenta.

Tokyo Tribe - Making-Of.
Tokyo Tribe: Tokyo Tribe é um musical de hip-hop japonês que conta a história de uma briga entre gangues. O filme é muito colorido e acho que a primeira frase é motivo o suficiente para qualquer pessoa querer assistir. A versão digital do longa-metragem está disponível para compra ou locação na Amazon americana.

The Kirishima Thing - Imagem Divulgação.
The Kirishima Thing: The Kirishima Thing aborda diversas histórias dentro de uma escola japonesa relacionadas ao desaparecimento do Kirishima, um aluno popular que se destacava no clube de vôlei do colégio. O filme tem uma referência muito interessante ao trabalho do George Romero e é ótimo por proporcionar aquela perspectiva de vida diferente citada na Observação 1. DVD à venda na Amazon americana (muito caro!).
Cena do anime de Monster.
Naoki Urasawa: Naoki Urasawa é um autor de histórias em quadrinhos conhecido por desenvolver thrillers intensos repletos de teorias de conspirações. Monster e 20th Century Boys são duas das suas obras mais importantes, a primeira ganhou um anime de 50 episódios e a segunda tem um filme. Os dois mangás possuem aproximadamente 20 volumes e foram inteiramente publicados pela Panini no Brasil. Sobre Monster e 20th Century Boys.

Parte da capa de Vitamin.
Vitamin: Vitamin segue o mesmo padrão de indicação de The Kirishima Thing; uma história do cotidiano de adolescentes no Japão. No entanto, nesse mangá o enredo gira em torno de uma única personagem que é vista fazendo sexo dentro da escola. A narrativa aborda as consequências de violência física e psicológica que essa garota sofre por causa disso. Em essência é uma história sobre bullying muito influenciada pela vida da própria autora. O quadrinho, publicado pela JBC, é de volume único e pode ser adquirido por um preço bem camarada.

Cena de Rebuild of Evangelion 1.0: You Are (Not) Alone.
Neon Genesis Evangelion: No papel é possível dizer que Neon Genesis Evangelion, anime e mangá, é uma história de robôs gigantes contra monstros gigantes. Porém, o enredo é muito mais denso do que isso. A trama do protagonista, Ikari Shinje, fala muito sobre depressão e o desgosto da própria vida que muitos adolescentes japoneses passaram durante os anos noventa. A obra foi inteiramente publicada por aqui pela editora JBC.

Aberturas para assistir:









Como parar para ver os animes ou lê os mangás pode necessitar de muito tempo, resolvi separar algumas aberturas de séries animadas que combinem bem com o contexto de “abrir sua mente para uma nova abordagem sobre uma mídia”.







PS: O vídeo de Os Mortos Vivos possui restrições de compartilhamento, portanto, não posso incorporar nessa postagem sem autorização. Desse modo, estou colocando aqui o trailer e o link para assistir diretamente no Vimeo.

Esse é o fim do meu monólogo em um semi-formato de conversa com uma pessoa que provavelmente nunca lerá esse artigo. Ademais, espero que qualquer pessoa que tenha chegado até aqui se divirta especialmente com os filmes indicados. Se você quer expandir seus horizontes, não fique olhando sempre para o mesmo lugar!

Tenha um ótimo dia.

Dulcelino Neto.

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