segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Corrente de Reviews 2016: Mnemosyne no Musume-Tachi (+18)

Fetichismo exagerado e personagens rasos marcam anime esquecível metido a Sherlock Holmes com Highlander.

Clique na imagem para acessar a postagem da Corrente de Reviews no Anikenkai.
Após um ano de hiato de situação, o blog Anikenkai, comandado pelo Diogo Prado, que também integra o Portal Genkidama, retornou com sua divertida Corrente de Reviews em 2016. O projeto interativo consiste em uma centopeia humana de animes: o Blog A indica uma obra para o Blog B; o Blog B indica um anime para o Blog C; e assim sucessivamente.

Cada blog/canal de youtube fica responsável por assistir e dar seus pitacos para a obra que o resenhista anterior lhe recomendou. O ciclo termina quando o último participante indica um título para o próprio Anikenkai, que por ventura foi justamente o primeiro a fazer sua recomendação.

Fiquei muito feliz com a indicação do Finis Geekis, pois não conhecia o título que me fora apresentado e aparentemente o mesmo não dispunha dos estereótipos mais marcantes intrínsecos no padrão comercial da indústria de animações japonesas.

A animação em questão se chama Mnemosyne no Musume-Tachi, conhecida majoritariamente apenas pelo primeiro nome. A série de médias metragens animados baseada no livro homônimo de Hiroshi Ōnogi foi produzida com parceria de dois estúdios, Xebec e Genco. Sua história foi concluída em seis episódios de aproximadamente 45 minutos.
Mnemosyne: Rin tomando seus bons drinks com a Yggdrasil ao fundo.
O enredo gira em torno de Rin Asōgi, uma detetive particular e peculiar que aceita diversos tipos de casos em troca de uns trocados. Ela desvenda mistérios de indivíduos desmemoriados e até mesmo encontra gatinhos perdidos. A personagem tem o estilo padrão de um herói desajustado, mas sempre dispondo de uma aura de felicidade em seu sorriso.

Em suma, Rin se apresenta com uma heroína típica de filmes de ação, aquela pessoa misteriosa e divertida que aparentemente guarda diversos segredos do seu passado. A cena de abertura que introduz a personagem é bem interessante, mostrando-a sendo perseguida por um algoz anônimo até então. O conceito de perigo incompreensível em um primeiro momento lembra a estrutura de uma narrativa que promete uma boa ação em uma trama simples, mas eficiente.

Em De Volta Ao Jogo (John Wick), filme estrelado por Keanu Reeves, nós somos apresentados a esse mesmo tipo de indivíduo: herói misterioso, cheio de recursos e com diversos segredos. A maioria dos filmes de ação, em especial dos anos 80 e 90, possuem essa estrutura. O que é realmente importante nesse contexto são as reações do personagem mediante a nocividade do seu ambiente e, nesse aspecto e em muitos outros, Mnemosyne falha miseravelmente.

O enredo procedural continuo – tramas individuais dentro de uma sequência única de história – corroboram para que a narrativa evolua para o bom estilo do herói de ação ou para o detetive peculiar, como o caso de Sherlock Holmes. Porém, diferente do Sr. Holmes, Rin tem a profundidade de um prato raso, suas peculiaridades responsáveis pela construção da sua personalidade se resumem a um terninho esverdeado e a um conjunto de faquinhas.

A grande sacada da trama é a imortalidade da protagonista, que se fosse bem trabalhada poderia proporcionar uma história mais interessante; no entanto, Mnemosyne dá a preferência em chocar pela exposição do que desenvolver os seus argumentos, ás vezes interessantes e em outros momentos, na sua maioria, execráveis. A imortalidade é o mote principal do enredo, mas que em nenhum momento ajuda na construção da história. Não há um peso real dentro da proposta, todos os ferimentos que a personagem sofre são exagerados e não proporcionam uma condição aceitável de periculosidade.

Wolverine dizendo sua frase clássica.
No clássico Eu, Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller, o leitor se depara com o carcaju em seu estado mais berserk. O Wolverine desafia de frente um clã de ninjas; ele nunca esteve tão furioso em sua vida até aquele instante momento. O mutante, conhecido por seu poderoso fator de cura e suas garras de adamantium, luta contra Shingen, um homem que empunha apenas uma espada de madeira, daquelas usadas para o treino de kendo.

O Wolverine perde.

Ele, Wolverine, é o melhor naquilo que ele faz, mas o que ele faz não é legal. Esse homem, cheio de recursos e poder, detentor de garras feitas com o metal mais resistente do mundo, é derrotado por uma espada de madeira. Sua fúria o deixa fraco, portanto, toda sua força e esforço são em vão mediante seu descontrole. Percebeu o peso dos acontecimentos?

Outro ponto que seria interessante em Mnemosyne é o fato da história avançar no tempo conforme o passar dos episódios. Às vezes a narrativa ocorre em um futuro próximo ou em uma década distante. Essa proposta em específico passa uma autonomia épica para a trama, algo semelhante a jornada do Highlander. Todavia, o que faz de Highlander um clássico são os pequenos momentos da vida do personagem, a simplicidade compõe o escopo épico do enredo em conjunto ao ambiente. Isso é justamente o oposto do anime, que é exagerado do início ao fim, proporcionando um amontado de informações supérfluas. Não faz a menor diferença se a história acontece em 1991, 2011 ou 2055. Se o enredo fosse desenvolvido em uma sala vazia o resultado seria o mesmo apresentado durante os seis episódios.

Mnemosyne é uma série exagerada em sexo e violência, mas que não fala em nenhum momento sobre sexualidade ou da violência por trás do tema. É como uma orgia em um baile de máscaras: o objetivo de todo mundo é o mesmo, porém, você precisa se esconder para não ser reconhecido como um impuro dentro daquela sociedade. A violência não tem peso e o erotismo sadista faz do telespectador um voyeur desafortunado.
Uma das inúmeras cenas de violência sexual de Mnemosyne.
Talvez essa inclinação para o espetáculo grosseiro seja fruto do tempo onde o choque motivava as pessoas a procurarem esses animes que não tinham o proveito de uma grande infraestrutura de marketing dos seus estúdios. No caso de Mnemosyne, sequer há uma infraestrutura de qualidade para a própria animação, que por muitas vezes abusa de cenas estáticas e planos longos para cortar os custos.

Rin, com seu terninho, faquinhas e imortalidade, é a clássica mulher objeto: objeto de cena; objeto sexual; objeto de sofrimento; e, principalmente, objeto destinado a ter apenas uma única função da trama, livre de suas próprias escolhas e satisfeita de se localizar dentro de um ciclo planejado sem seu consentimento e desejo.

O sexo é extremamente banal, voltado essencialmente para o telespectador masculino do que para o desenvolvimento de qualquer personagem ou enredo. Novamente, a única escolha lógica do roteiro é prender o público pelo exagero. Rin, e as demais personagens femininas do anime, são um conjunto de falsas mulheres maduras, que tem sua condição de poder conduzida apenas para o show visual despudorado. 
Mimi em uma cena de sexo/abuso/prazer/dor
O abuso, frequente e em alguns momentos desconexo com a própria narrativa, é a objetificação máxima do voyeurismo. A história não se limita em mostrar suas protagonistas, antagonistas e coadjuvantes desnudas, elas precisam sofrer por suas depravações. Entretanto, o sofrimento vem junto a uma sequência de gemidos e expressões de prazer, porque o anime quer chocar, mas ele não quer fazer isso ao ponto do jovem telespectador perder sua excitação diante a nudez oferecida.

No fim, tudo não passa de um exibicionismo barato. Não há um pingo de sensibilidade na trama. As mulheres não podem sentir um prazer real e suas dores são irrelevantes, porque a imortalidade torna qualquer sofrimento em conteúdo descartável. É preciso falar sobre sexo quando você quer falar sobre sexo. Até A Hora de Aventura aborda melhor essa temática do que Mnemosyne.

Arte do Brão: Sketch para Cornücópia
No quadrinho francês Primeiras Vezes, roteirizado pela talentosa Sibylline, o sexo é utilizado para dialogar sobre diversas condições problemáticas e prazerosas da vida humana. Não importa se é um sentimento complexo ou simples, o sexo compõe o quadrinho erótico de madeira sublime durante o desenvolvimento da relação dos personagens. Na Cornücópia do Brão, a mulher, rainha da sua própria poltrona sadista, tem real poder sobre seus fetiches. O sexo tem relação com o conteúdo, sendo esse o real motivo de sua abordagem.

De maneira óbvia, é fácil dizer que o erotismo é parte essencial da arte erótica, mas não se pode ignorar o mais importante nesse caso: Mnemosyne não é uma obra erótica! O anime é uma série da HBO, por assim dizer. O objetivo é oferecer uma trama intrigante com um tom mais adulto e sombrio, desenvolvendo cenas de violência e sexo conforme o desenrolar da trama. Todavia, como foi salientado mais de uma vez, na história isso não passa de puro exibicionismo.

O que prende o telespectador em qualquer roteiro são as características do personagem modificando o seu ambiente ou o mesmo sendo modificado/reagindo mediante uma determinada situação. A Rin, a personagem objeto, é imortal e não tem nenhum poder verídico. Por sua vez, a trama épica consegue ser mais irrelevante e sem graça do que os argumentos do filme do Esquadrão Suicida. O que sobra é apenas uma trajetória fraca e facilmente esquecível.

Deixando as formalidades de lado: é possível afirmar sem medo que Mnemosyne não vale o seu tempo ou sua punheta – caso esse fosse seu motor de interesse pela obra. Não é apenas uma questão de ser ruim, é uma questão de ser descartável em todos os níveis possíveis. Isso é bem triste, porque sinto que alguém dentro de um dos dois estúdios responsáveis pela produção do anime realmente acreditava que estava contando uma boa história.
Rin, sempre preocupada e nunca interessante.
Gostei bastante de participar dessa corrente por uma série de motivos e sentimentos diferentes. Atualmente o que me deixa mais curioso é saber o motivo da indicação de Mnemosyne no Musume-Tachi. Será que o Finis Geekis pensou que o anime combinava comigo? Será que ele gosta do anime? Ele queria saber minha opinião sobre algo específico ou era apenas mais uma indicação só para participar? Acho que essa é uma dúvida agradável para ficar remoendo no fim do dia. (=

Acesse o Anikenkai para acompanhar as demais resenhas da Corrente de Reviews 2016.

E dando continuidade à corrente: a minha indicação é Wake Up, Girls! - Seven Idols para o canal LBTV. Foi uma escolha muito difícil, pois fiquei encarregado de recomendar um anime para uma pessoa que fala disso toda semana. Espero ter acertado em minha escolha.

2 comentários:

  1. Olá Dulcelino!

    “Mnemosyne” é uma série que me dividiu quando a vi pela primeira vez. Lendo críticas ao longo dos anos, pude perceber que não era o único. Achei que, para o exercício da corrente, seria um anime mais interessante que um clássico inquestionável ou um título popular do momento.

    De minha parte, acho o anime desconfortável, mas confesso que tenho por ele certo apreço. Não como triunfo intelectual, mas como uma iteração contemporânea do ero guro.

    É, de fato, uma “orgia em um baile de máscaras”, mas há um motivo pelo qual esse princípio dionisíaco nunca desapareceu da nossa civilização. E que faz com que as séries da HBO, que você cita no texto, sejam hoje populares como nunca antes. Há um quê de terrivelmente humano na libertinagem arbitrária que me assusta - ao mesmo tempo em que me fascina.

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    1. O fascínio pelo obscuro é comum, mas não acho que seja isso que o anime ofereça. Como salientei, a história não é erótica e o lado gore também não é elaborado, é apenas exibicionismo. Não é como se fosse um filme do Tarantino ou, citando um anime, Elfen Lied. Elfen Lied tem muitos problemas, mas a história sabe trabalhar o peso dos acontecimentos na hora da violência (na maioria das vezes). A única exceção nessa comparação é a nudez, pois os dois são semelhantes, mas o segundo é bem mais ponderado. No fim essas coisas acabam sendo mais fanservice do que conteúdo ¯\_(ツ)_/¯

      Ademais, agradeço a indicação, foi um bom exercício escrever esse artigo (:

      Até.

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